A pergunta que mais chega para nós de quem está pensando num elétrico não é sobre autonomia nem sobre eletroposto. É sobre a conta de luz. “Vai pesar?” Todo mundo responde com uma frase vaga. Nós abrimos a fatura. Pegamos a tarifa residencial da Enel em São Paulo, a bateria do Dolphin Mini, o elétrico mais vendido do Brasil, e fizemos a conta com os números de setembro de 2026.
O resultado curto: uma recarga completa, de zero a cem, custa cerca de R$ 30 sem impostos e algo entre R$ 38 e R$ 42 com eles, na nossa estimativa. Rodar mil quilômetros no mês sai por volta de R$ 150. O mesmo trajeto a gasolina passa de R$ 500. Abaixo, a origem de cada número e a fórmula para você trocar pelo seu carro.
A tarifa que entra na conta
Desde 4 de julho de 2026, a tarifa residencial B1 da Enel São Paulo é de R$ 0,789 por kWh, somando R$ 0,472 de TUSD, que paga o uso da rede, e R$ 0,317 de TE, que paga a energia em si, segundo a Enel SP (03/07/2026). O reajuste aprovado pela ANEEL em 30 de junho foi de 9,02% para o residencial e de 10,18% na média, conforme o InfoMoney (30/06/2026).
Esse valor é sem impostos. Em São Paulo, o ICMS de 18% incide sobre o consumo residencial que passa de 200 kWh no mês, e PIS e Cofins somam algo perto de 9%, conforme a composição impressa na própria fatura da Enel SP de agosto de 2026. Tratamos essa soma como estimativa, porque a alíquota de PIS/Cofins muda todo mês e as faixas de ICMS abaixo de 200 kWh pagam menos. Quem mora em outro estado precisa consultar a Sefaz e a fatura da própria distribuidora.
A recarga completa, real
O Dolphin Mini tem bateria de 38 kWh e autonomia de 280 km no ciclo Inmetro, segundo a ficha da BYD Brasil. Encher a bateria de zero a cem por cento pede 38 kWh. Multiplicado por R$ 0,789, dá R$ 29,98. É isso: menos de R$ 30 pela recarga completa, antes dos impostos.
Só que o carregador não é perfeito. Uma parte da energia vira calor entre a tomada e a bateria, e uma perda de cerca de 10% na recarga em corrente alternada é a referência que usamos. A BYD não declara essa perda para o Dolphin Mini. Com ela, a conta vira 41,8 kWh, ou R$ 32,98. Somando ICMS e PIS/Cofins, chegamos a algo entre R$ 38 e R$ 42, sempre como estimativa. Por quilômetro rodado, fica entre R$ 0,11 e R$ 0,15.
Antes da conta do mês, vale ver o teste do Garagem 360, que mediu o consumo dos modelos da BYD carregando em casa e chegou a uma conclusão parecida com a nossa.
Mil quilômetros por mês

Mil quilômetros é perto do que um carro de família roda numa cidade grande. Com 280 km por carga, são 3,6 recargas completas, ou 136 kWh entrando na bateria. Contando a perda do carregador, 150 kWh saem da tomada. A R$ 0,789, isso custa entre R$ 107 e R$ 118 sem impostos, e por volta de R$ 150 com ICMS e PIS/Cofins, ainda na nossa estimativa.
Agora a gasolina. A média nacional da gasolina comum ficou em R$ 6,53 por litro na semana de 6 a 12 de setembro, segundo o levantamento da ANP publicado pelo O Povo (14/09/2026). Um hatch que faz 12 km por litro queima 83 litros nos mesmos mil quilômetros: R$ 544. A diferença passa de R$ 400 por mês, ou perto de R$ 4.800 no ano, em favor do elétrico.
Um detalhe que a conta esconde: os 150 kWh do carro entram na mesma fatura da geladeira e do chuveiro. Se a casa já consumia 180 kWh, o carro empurra tudo para cima de 200 kWh e o ICMS cheio passa a incidir. É por isso que a fatura parece subir mais do que o carro consome. Não é mágica, é faixa de imposto.
O que muda a conta
O primeiro fator é o carregador: tomada 220 V comum (cerca de 2,2 kW) ou wallbox de 7 kW. O custo da energia é o mesmo; o que muda é o tempo plugado.
O segundo fator é a tarifa branca. Ela cobra menos pela TUSD fora do horário de ponta, principalmente de madrugada, e mais nas horas cheias do início da noite. Para quem carrega o carro dormindo e tira o chuveiro elétrico das 18h às 21h, a conta cai; para quem não consegue, sobe. A simulação precisa ser feita com a fatura na mão.
O terceiro fator é a bandeira tarifária. Quando a bandeira está vermelha, a ANEEL acrescenta R$ 4,46 a cada 100 kWh no patamar 1 e R$ 7,87 no patamar 2, segundo a tabela de bandeiras tarifárias da ANEEL vigente em setembro de 2026. Nos 150 kWh do nosso carro, são R$ 6,69 ou R$ 11,81 a mais no mês. Não é o que desfaz a economia sobre a gasolina, mas aparece na fatura.
A fórmula para o seu carro

A conta que fizemos vale para qualquer elétrico; basta trocar três números. Custo da recarga completa = bateria em kWh × tarifa da sua distribuidora em R$/kWh × 1,1. O 1,1 é a perda do carregador. Custo por quilômetro = esse resultado ÷ autonomia Inmetro. Custo do mês = custo por quilômetro × quilômetros que você roda.
Exemplo com outro carro: uma bateria de 50 kWh na Enel SP dá 50 × 0,789 × 1,1 = R$ 43,40 sem impostos. Se a autonomia Inmetro for 350 km, são R$ 0,12 por quilômetro. Se o fabricante não declara a autonomia no ciclo Inmetro, não use o número chinês ou europeu: a conta sai otimista demais.
A tarifa está na própria fatura, na linha de TUSD e TE sem impostos. A bateria está na ficha técnica do fabricante. O resto é hábito, e esse ninguém declara.
Sua conta de luz já tem um carro dentro? Quanto subiu no primeiro mês? Conta pra gente.