A pergunta chega sempre do mesmo jeito: a moto elétrica custa mais caro na loja, mas devolve isso na bomba. Em quanto tempo? Ninguém responde com número, e a gente cansou de “depende”. Então fizemos a conta. Colocamos lado a lado a Yadea Keeness, a elétrica montada em Manaus, e a Honda CG 160, a moto de entrada mais conhecida da Honda, e somamos o que cada uma cobra em doze meses.
Os números de entrada vêm de fontes públicas: tabela de preço da Honda, ficha da Yadea, gasolina média da ANP e tarifa projetada pela Aneel. Onde o fabricante não declara, escrevemos isso. Onde a conta é nossa, marcamos e mostramos o que entrou nela. Sem achismo.
Na loja, a combustão ganha de lavada
Começamos pelo preço de compra, porque é ali que a elétrica perde por goleada. A Honda CG 160 2026 sai por R$ 17.350 na versão Start, R$ 18.980 na Fan e R$ 20.590 na Titan, segundo a tabela publicada pelo MOTOO em 12 de maio de 2026.
Do outro lado, a Yadea Keeness custa R$ 28.900, com 129 km de autonomia declarada e produção em Manaus, de acordo com o Tudo de Motos de 26 de dezembro de 2025. Entre a CG Start e a Keeness, a diferença é de R$ 11.550, conta nossa. É esse valor que a elétrica precisa devolver para empatar.
Vale lembrar que as duas exigem habilitação e placa. Quem quer fugir disso precisa olhar para outra categoria, a das motos elétricas que dispensam CNH e emplacamento, que têm potência menor e outra conta.
O que a tomada cobra por ano
Antes da conta da energia, vale assistir a esta comparação em vídeo entre moto elétrica e combustão. O canal é de uma empresa de energia solar, viés declarado, mas a lógica do custo por quilômetro é a mesma que usamos aqui.
A Keeness roda com duas baterias de 72 V e 32 Ah, segundo a ficha divulgada pelo MOTOO no lançamento, no Festival Interlagos de 2025. Multiplicando, são 4,6 kWh de capacidade total. Para 12.000 km por ano, ou 1.000 km por mês, com 129 km por carga, dá 93 cargas completas. Vezes 4,6 kWh, são 428 kWh no ano, conta nossa.
A tarifa que usamos é a residencial média projetada pela Aneel para o fim de 2026: R$ 849 por MWh, conforme a pv magazine Brasil de 17 de março de 2026. Os 428 kWh a esse preço dão cerca de R$ 363 por ano, conta nossa, sem contar as perdas do carregador, a tarifa da sua distribuidora e a bandeira do mês. Trinta reais por mês para rodar mil quilômetros.
O que a bomba cobra por ano

A gasolina comum estava em R$ 6,53 o litro na média nacional da semana de 6 a 12 de setembro de 2026, segundo a ANP citada pelo Jornal de Brasília em 14 de setembro. Esse é o preço de entrada da conta da combustão.
O que falta é o consumo da CG 160, e aqui a gente trava: a Honda não declara o número de km por litro na ficha. Por isso não vamos cravar. A fórmula fica com você: 12.000 km divididos pelos km por litro da sua moto, vezes R$ 6,53. Quanto menos km por litro a sua faz, mais a conta sobe.
Compare o resultado com os R$ 363 da tomada. A diferença anual é o que vai amortizar, ano a ano, os R$ 11.550 a mais que a elétrica custa na loja. Rodando mais, o prazo cai.
O relato de quem roda 12 h por dia
Quem roda muito é quem sente a diferença de verdade. O Tudo de Motos publicou em 19 de setembro de 2026 o teste da Auper 600 CE em entregas reais em São Paulo, e o entregador ouvido pela reportagem gasta cerca de R$ 15 por semana de energia, contra cerca de R$ 240 por semana de gasolina que pagava antes na moto a combustão.
Em 52 semanas, conta nossa, são R$ 780 contra R$ 12.480. A diferença de R$ 11.700 em um ano cobre sozinha os R$ 11.550 que separam a CG Start da Keeness na loja. Nessa ordem de grandeza, a diferença de loja se cobriria em cerca de um ano, se os números se repetissem. A Auper diz ainda que a manutenção cai mais de 80%, número da própria fabricante, que ainda não conferimos em oficina.
A ressalva: a 600 CE é uma moto de 25 kW, de outra categoria que a Keeness, e os números são de um único entregador em fase inicial de teste. Mostram a ordem de grandeza, não prometem economia.
O que entra e o que sai da conta

A conta acima só comparou compra e energia. Faltam quatro linhas. A primeira é manutenção: a elétrica não tem troca de óleo, filtro nem vela, e a economia que a Auper cita é de mais de 80%, mas a Yadea não declara o custo de revisão para comparar. A segunda é o IPVA, que muda de estado para estado. Consulte a Sefaz do seu estado antes de fechar a conta.
A terceira linha é o seguro, que depende do perfil do condutor e da cidade; a seguradora cota. A quarta, a que mais nos preocupa, é o valor de revenda: a linha CG tem décadas de histórico de usado; a Keeness ainda não tem histórico de usado no Brasil. Ninguém sabe quanto ela vale daqui a três anos.
Para quem trabalha com aplicativo, há uma variável nova. O Move Brasil virou lei permanente com R$ 30 bilhões via BNDES, financiamento em até 84 parcelas e juros de 12,6% ao ano, 11,5% para mulheres, para quem comprova seis meses de atividade em plataforma, segundo a Agência Brasil de 14 de setembro de 2026. Isso não muda o custo anual, mas muda quem consegue pagar os R$ 11.550 a mais na entrada.
Você roda quantos km por mês? Com a sua conta de gasolina, em quantos meses a elétrica se pagaria?